Sistemas de sprinklers – Projeto Técnico x Projeto Executivo

 

Revista da Instalação
Agosto/2018
Sistemas de sprinklers – Projeto Técnico x Projeto Executivo
Escrito por associada: Mariana Junqueira


 

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Introdução

“O projeto técnico aprovado pelo Corpo de Bombeiros está para os sistemas de sprinklers, assim como o projeto de arquitetura está para a construção de uma edificação”. Ninguém constrói uma casa apenas com o projeto arquitetônico. Você construiria a sua? SISTEMAS DE SPRINKLERS: Projeto Técnico X Projeto Executivo

Enquanto essa máxima não for compreendida pelo colaborador responsável em contratar os serviços de instalação do sistema de sprinkler, ainda teremos milhares de sistemas sendo instalados errados, usando como base o projeto técnico “aprovado”.

De quem é a culpa

Confesso que fica difícil explicar para a pessoa que está nos contratando, que na maioria das vezes é um profissional da área de engenharia ou segurança do trabalho, que o projeto técnico que ele tem “aprovado” não pode ser utilizado para instalação, porém, eu mesma já ouvi mais de uma dúzia de vezes desses mesmos profissionais que: “se o projeto foi aprovado pelo Corpo de Bombeiros, ele será instalado conforme projeto aprovado e o sistema de sprinklers tem que ser aprovado na vistoria. Afinal de contas eles que aprovaram!”.

Então, será que o problema está no Corpo de Bombeiros, que aprovou o projeto técnico e não deixou claro no despacho de aprovação que o que foi aprovado é apenas um projeto preliminar, e que esse projeto (preliminar) não pode ser utilizado para instalação dos sistemas, devendo o proprietário contratar uma empresa especializada para fazer o projeto executivo e também contratar uma empresa especializada para fazer a instalação (muitas vezes as empresas fazem o projeto e a instalação, o chamado contrato turn key), e que ele deve, ainda, verificar se a empresa que ele está contratando tem experiência nesse tipo de sistema (gostaria de escrever certificado, mas não temos uma certificação nessa área, ainda)? Ou o problema está nas empresas de projeto que não orientam seus clientes sobre o tipo de projeto que ele vai precisar contratar, além do projeto técnico que está contratando? Confesso que eu já ouvi muito por aí que o projeto técnico feito pela empresa “X” é praticamente um executivo…, mas não é executivo. E se não argumentarmos, continuamos a desvalorizar o nosso próprio trabalho. A mesma empresa pode fazer o técnico e o executivo, não vejo problemas nisso, desde que seja um executivo completo. Se tem competência para isso, tem mais é que fazer.

Não podemos esquecer das empresas instaladoras mais desavisadas, que são as que geram os maiores problemas depois, pois olham o projeto técnico de sprinklers e acham que ele é como um projeto técnico de hidrantes, onde só não se deve alterar a posição pontual dos hidrantes, mas se precisar alterar o caminhamento da tubulação, tudo bem!

Sprinkler não é assim. Uma empresa que se disponha a fazer a instalação de sistemas de sprinklers tem que saber sobre o sistema, como ele funciona, quais as implicações das obstruções, mudanças de caminhamento, instalação de muitas curvas não previstas no projeto, a pressão mínima que um sprinkler tem que trabalhar, etc. O responsável pela empresa que está na obra tem que saber de tudo isso, ele tem que entender que sprinkler não é hidrante e que não se trata de instalação hidráulica simplesmente. O instalador tem que ser especialista no assunto.

O que posso afirmar é que a contratação de uma empresa instaladora de sistema de sprinkler com base unicamente no preço é a opção mais trágica possível, normalmente elas estão inversamente relacionadas com a capacidade dos instaladores.

Implicações

Está claro na IT-23 – Sistemas de chuveiros automáticos – Instrução Técnica do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo (CBSP), que o projeto técnico que será aprovado é um projeto preliminar, e que o projeto executivo deverá ser deixado no local a disposição do vistoriador.

Mas existe uma controvérsia nas IT´s (Instruções Técnicas) que confunde os projetistas (e eu me incluía nessa turma), onde as orientações e anexos informativos da IT 01 – Procedimentos administrativos (CBSP), no item 5.1.3.2.2 (p) exigem uma porção de informações que devem ser apresentadas no projeto de sprinklers, e no anexo informativo sugere uma porção de detalhes de instalação, e todas essas informações solicitadas remetem a um projeto executivo (ver tabela 01). É esse ponto que gera a maioria das dúvidas do que realmente tem que ser apresentado em um projeto técnico de sprinkler.

Eu acredito que a legislação do Corpo de Bombeiro está correta no seu ponto de vista, aprovar apenas um projeto preliminar, mas ela tem que ser ainda mais clara, deixando explícito que o que será aprovado são apenas a indicação das áreas protegidas pelos sistemas de sprinklers, os isométricos com a classificação e os parâmetros de cálculo de cada área e o cálculo hidráulico preliminar para que se consiga pré dimensionar a bomba e a reserva de incêndio, todas as demais informações poderiam ser eliminadas do projeto técnico. As pessoas estão fazendo projetos técnicos sem nem imaginar todos os itens que podem modificar completamente um projeto técnico de um projeto executivo.

Inúmeros fatores podem fazer com que o projeto executivo tenha que partir do ponto inicial, isso é, pegar o projeto técnico aprovado e jogá-lo no lixo e vou explicar o porquê.

Por inúmeros motivos, o projeto arquitetônico é o projeto disponibilizado pelo cliente para a elaboração do projeto técnico, e isso está correto, pois preciso das informações de arquitetura como divisórias, móveis e nos casos de indústria layout de equipamentos e armazenagem para o dimensionamento dos sistemas de segurança

Pois bem, nessa época do projeto, em que o cliente está definindo a arquitetura, ele ainda nem está pensando na contratação do projeto de estrutura, isso vem depois. Porém o projeto executivo do sistema de sprinklers não tem como ser concebido sem o projeto da estrutura, seja ele do telhado ou das vigas de uma laje.

Na época da elaboração do projeto executivo o projetista pode ter soluções melhores, ou ainda verificar que a solução apresentada no projeto técnico não é exequível, e aí? Posso ter que alterar a direção dos ramais, pois falta apoio para os suportes, com isso posso ter que alterar a capacidade da Bomba. E como fica o projeto que já foi aprovado? Não vou ter meu Auto de Vistoria (AVCB) porque o desenho que o vistoriador tem em mãos está diferente do que foi executado.

Eu já tive esse caso, e por isso usei com exemplo. Em função da posição das terças estarem diferentes no projeto da estrutura, toda a tubulação do sistema de sprinkler teve que ser alterada, com isso tivemos uma grande alteração no projeto, nesse caso do projeto técnico aprovado só aproveitamos a parte externa, o restante foi alterado completamente. O sistema foi instalado, e na época da vistoria o que mais chamou a atenção do vistoriador foi que o sistema de sprinkler estava totalmente “errado” porque estava diferente do desenho que ele tinha em mãos. Isso poderia ter sido resolvido rapidamente se o vistoriador que é do Corpo de Bombeiros solicitasse à empresa o projeto executivo, conforme está previsto na sua própria legislação. Mas ao contrário disso ele solicitou a atualização do projeto através de FAT (Formulário de Atendimento Técnico) que levou mais 10 dias para ser aprovada e só depois disso pôde ser agendada uma nova vistoria.

A questão mais importante é que os milhões gastos com a instalação de um sistema de sprinkler projetado de maneira “preliminar” e que vai comprometer a eficiência do sistema, MARIANA JUNQUEIRA Diretora da Blue Fire Engenharia e Consultoria, Secretária da Comissão de Estudos de Chuveiros Automáticos do CB-24, Coordenadora do Comitê Técnico da ABSpk serão os mesmos milhões gastos com um sistema instalado com um projeto executivo.

Lembrando que todas as obstruções, pressão mínima, tipo de bico, tempo de respostas entre outras características do sistema estão diretamente relacionadas com o tipo de incêndio que você vai querer proteger e devem ser cuidadosamente verificadas e apontadas no projeto executivo. Sabe-se que os incêndios são controlados ou apagados por sistemas de sprinklers, quando são eficientemente projetados, instalados e mantidos em operação, em menos 15 minutos (em alguns casos em segundos). Já imaginaram se um único sprinkler, em uma área de armazenagem de plástico estiver obstruído, ele não vai conseguir combater o incêndio na sua fase inicial e comprometerá todos o resto do sistema. Conseguem compreender a importância de se falar nesse assunto?

Solução

Acredito que a melhor solução seria a alteração da documentação exigida pelo Corpo de Bombeiro para aprovação dos projetos, como informações mais genéricas e que facilmente poderiam ser verificadas em vistoria.

Ainda assim, por questões que já expliquei, o projeto executivo pode ficar diferente do projeto técnico aprovado, nesse caso, o projeto deve estar disponível na planta durante a vistoria do Corpo de Bombeiros.

Não faz sentido um analisador do Corpo de Bombeiros, que tem que analisar centenas de projetos por semana, verificar se a distância entre os bicos está correta, ou que um sprinkler está obstruído, eles não têm informações suficientes para essa análise completa.

Se pensarmos do ponto de vista financeiro, que é como todos os compradores têm que pensar, o projeto técnico passa a ser negociado por um valor menor, uma vez que seria apresentada uma quantidade menor de folhas e o tempo para elaboração do projeto seria menor.

Conclusão

Como em todas as áreas de conhecimento, existem várias teorias para o mesmo assunto, e até que se provem o contrário todas são corretas. Essa é a minha opinião e a de vários colegas da área de proteção contra incêndio por sprinkler e acredito que essas sugestões podem ajudar bastante na melhoria da qualidade dos projetos e das empresas instaladoras.