Sprinklers e o senso comum

Revista Incêndio
Por João Carlos Wollentarski Júnior


Sprinklers e o senso comum

Sistema de sprinklers não é só para preservar patrimônios, é uma das melhores soluções para preservação de vidas! Neste artigo, tomo a liberdade de escrever em primeira pessoa a fim de que o diálogo seja esclarecedor e, principalmente, para que seja narrado de forma cronológica.

No mês de abril, tive a oportunidade de ler a reportagem da edição de Março de 2017 da revista Incêndio chamada “Métodos Diferentes”. Como profissional da área e atual presidente da Associação Brasileira de Sprinklers (ABSpk), não pude deixar de ficar incomodado com tamanha irresponsabilidade nos comentários que dizem respeito ao sistema de sprinkler. Trata-se de um debate inapropriado, em um espaço inadequado e sem fundamento técnico ou científico.

Em junho, no dia 14, acordei e me deparei com um incêndio de grandes proporções no edifício residencial Grenfell Tower, em Londres. E as poucas informações que tínhamos no momento eram:

1) Houve vítimas fatais e inúmeros feridos;

2) O mesmo desenvolveu-se verticalmente tomando praticamente toda a edificação;

3) Trata-se de um edifício da década de 1970, que não possuía sistemas de sprinklers.

A relação entre esses dois eventos está no fato que, indiretamente, um contradiz o outro. E o papel deste artigo é exatamente mostrar que sprinkler, há mais de cem anos, vem salvando vidas e talvez, num futuro próximo, teremos debates amplos e abertos no Brasil para instalação deste tipo de tecnologia em edificações residenciais.

No século 19, junto com a revolução industrial, nascem os grandes incêndios em edificações. Muitos estudos foram realizados na Inglaterra e nos EUA para o desenvolvimento de um sistema eficaz e automático de combate a incêndios. As primeiras patentes, no início do século 19, aparecem na Inglaterra em um conceito de tubos perfurados. No final deste mesmo século, Henry Parmelee e Frederick Grinnell desenvolvem os primeiros bicos de sprinkler que, apesar de ser uma tecnologia muito parecida com os tubos perfurados, tinham o diferencial de possuir um defletor para distribuição da água e um elemento termossensível de atuação.

Em 1887, tanto a UL quanto a FM já tinham definidos padrões  de proteção por sprinklers, e as seguradoras já reconheciam a importância da tecnologia para proteção contra incêndios. Nos anos seguintes, temos a criação da National Fire Protection Association (NFPA) e também a norma NFPA 13 (norma para instalação de sistemas de sprinklers).

Sprinklers e o senso comum 2

Na primeira década do século 20, grandes tragédias abalaram os EUA levando a centenas de mortes por incêndios. No incêndio do Rhodes Opera House, em Boyertown, Pensilvânia, foram 171 mortos; no Iroquois Theater, em Chicago, Illinois, houve 602 mortos; e no edifício fabril Triangle Shirtwaist, em Nova York, foram mais 145 mortos. Apesar do sprinkler ter sua popularidade já reconhecida nesta época pelas seguradoras e pelos proprietários de edificações que conheciam a tecnologia, a maioria das edificações nos EUA

ainda não possuíam esse tipo de proteção.

Em 1913, a NFPA cria o Life Safety Code (NFPA 101) com base em um estudo que indicou que, após 38 anos de instalação de sistemas de sprinklers, apenas cinco pessoas haviam morrido nas edificações com esta tecnologia. Nascem então os primeiros critérios para definição de onde instalar sistemas de sprinkler para proteção de edificações tendo como premissa a proteção à vida.

Em 1953, a norma de sprinkler NFPA 13 é revisada para previsão do tipo de sprinkler que usamos até hoje, denominado sprinkler padrão. Na década de 1970, essa mesma norma entra com a previsão de cálculos hidráulicos visto que, agora, temos computadores para fazê-los. Nesta mesma época, iniciam-se os estudos para criação de uma norma de sprinklers para edificações residenciais (NFPA 13D). No início da década de 1980, temos as certificações dos primeiros bicos de sprinklers residenciais e grandes avanços nos sprinklers de resposta rápida. Nessa mesma época, um incêndio no hotel MGM Grand, em Las Vegas, vitimou 85 pessoas. A consequência desta tragédia foi um grande esforço nos EUA para reformar os edifícios altos, com retrofit de sistemas de sprinkler. No Brasil, nesta época, começamos a ter as primeiras exigências de sistemas de sprinklers depois dos grandes incêndios que ocorreram na década de 1970.

No início dos anos 1980, a norma de instalação de sprinklers NFPA 13 passa a recomendar o uso de bicos de resposta rápida, tornando-os obrigatórios a partir de 1997 em áreas de risco leve. Esta mudança veio para melhorar as condições de segurança dos ocupantes de edificações de grande concentração de público (igrejas, hotéis, edifícios de escritórios, escolas e afins). Sendo um bico que abre mais rápido, a área queimada é menor, a quantidade de gases tóxicos liberadas é menor e, consequentemente, maior é a eficácia na proteção de vidas. Essa mesma exigência entrou na norma brasileira de instalação de sprinklers NBR 10897, em 2007.

Em 2003, em Rhode Island, 100 pessoas perderam suas vidas em uma boate que não possuía proteção por sprinklers. Um estudo do National Institute of Standards and Technology (NIST), do Departamento de Comércio dos EUA, demonstrou através de ensaios em escala real que, se houvesse sprinklers neste tipo de ambiente, em nenhum momento as condições de sobrevivência dos ocupantes da boate deixariam de ser mantidas, sendo bem provável a redução radical ou a inexistência de vítimas fatais. No estudo, em pouco mais de um minuto, a boate sem sprinklers já estava tomada pela fumaça com concentrações altíssimas de gases tóxicos e temperaturas elevadas impossibilitando as condições de sobrevivência. Quando se repete o incêndio em escala real, dessa vez com um sistema de sprinklers instalado, o combate ao incêndio inicia-se poucos segundos após o início do fogo e, consequentemente, temos pouquíssima liberação de gases e baixas temperaturas. Essas condições não só permitiriam que as pessoas evacuassem o local com segurança, mas também facilitariam o acesso das equipes de resgate e de combate. Infelizmente, no Brasil, não fomos capazes, como sociedade, de aprender com o erro dos outros e repetimos a mesma tragédia, dez anos depois, na Boate Kiss. Um incêndio exatamente com as mesmas características, porém, com um número bem maior de vítimas fatais.

Sprinklers e o senso comum 3

Em julho do ano passado, o mundo ficou chocado com um incêndio em um grande edifício em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Um arranha céu residencial de 76 pavimentos queimou em uma das cidades mais imponentes do planeta. O incêndio alastrou-se rapidamente pela fachada, tal como aconteceu agora no edifício Grenfell, em Londres. Comum aos dois incêndios foi o desenvolvimento vertical pela fachada, mas a grande diferença entre ambos é que, no primeiro, não houve mortes. No segundo, foram dezenas de vidas perdidas.

É cedo para dizer as causas e traçar um paralelo entre os dois incêndios, mas o que chama atenção é que no edifício de Dubai tínhamos sprinklers e no de Londres não. Não é de se esperar que uma edificação protegida por sprinklers fosse capaz de controlar um incêndio se desenvolvendo em sua fachada, mas, com certeza, propiciaria melhores condições para evacuação das pessoas, visto que evitaria o desenvolvimento horizontal do incêndio no interior dos pavimentos.

Vejo com certa preocupação a análise de alguns profissionais da área de incêndio no Brasil, que insistem em repetir que o sprinkler é uma tecnologia para salvar patrimônio e não vidas. Esta afirmação além de ser equivocada mostra um grande desconhecimento sobre toda a história da tecnologia conforme exposto neste artigo.

Baseado em que um profissional afirma que é errado os Corpos de Bombeiros e a ABNT aceitarem critérios maiores para distância máxima até uma saída de emergência em edificações protegidas por sprinklers? Conforme dito anteriormente, desde 1913, quando se criou o primeiro código de segurança de vidas (NFPA 101 – Life Safety Code), os sprinklers são entendidos como aliados da preservação de vidas e não só do patrimônio. Será que o mundo inteiro está errado, incluindo a NFPA, a ABNT e os Corpos de Bombeiros?

Infelizmente, no Brasil, existe a cultura de tratar incêndios com base em percepções populares e sem qualquer respaldo técnico científico. Parece lógico que detecção automática de incêndios, controle de fumaça e controle de materiais de acabamento são tecnologias importantíssimas para preservar vidas, e fundamentais para um projeto eficaz de segurança contra incêndio.

Intuitivamente, todo ser humano é capaz de entender a vantagem desses três sistemas e acreditar que eles salvam vidas. Eu também acredito, leitor, mas não é isso que está em discussão. O que se discute aqui é se o sprinkler é também um meio eficaz de salvaguardar vidas. O sprinkler não é só um meio eficaz como tem demonstrado há mais de um século a sua eficiência. Os sistemas de sprinkler possuem as seguintes vantagens em relação à segurança da vida:

1) Não deixa o incêndio se propagar nos ambientes. Ele controla, suprime ou mesmo extingue focos de incêndio no interior das edificações;

2) É um sistema automático que irá atuar independente da vontade humana e está disponível 24 horas por dia nos 365 dias do ano;

3) Ao controlar um incêndio no seu início, o aumento do calor é interrompido e a produção de gases tóxicos é diminuída. Lembre-se que o que gera intoxicação por fumaça é a concentração de gases tóxicos no ambiente. Se eu reduzo drasticamente a produção desses gases, propicio condições não só de evacuação das pessoas como também de acesso das equipes de combate;

4) Facilita o trabalho das equipes de combate visto que receberão um incêndio já controlado, podendo demandar maiores esforços no atendimento às vítimas.

Sociedades avançadas buscam seus caminhos através de pesquisas, estudos e engenharia. É nosso dever proteger as pessoas com as melhores tecnologias disponíveis. A experiência vivida pelos outros deve servir como inspiração para não cometermos os mesmos erros. Tragédias como a da Boate Kiss poderiam ser evitadas assim como do edifício Grenfell Tower, em Londres. Então, leitor, vamos aprender com os erros dos outros ou vamos esperar a nossa próxima tragédia? Busque sempre o melhor. Estude, pergunte, procure se informar e pense sempre nas tecnologias como aliadas e não como inimigas.